terça-feira, 18 de outubro de 2011

A PRIMEIRA VEZ

Pensei que seria menos doloroso. Acordar tão cansada de noites que mal consigo decifrar como “períodos noturnos”. Não paro para pensar em tudo. Na louça para lavar a tempo, nas 400 abdominais obrigatórias que terei que fazer no meu aparelho muscular, no almoço saudável e facilitador de perda de calorias, na minha apresentação poética. Chega a ser engraçado isso, depois de tantos anos, tantos escritos espalhados, e só agora pareço ter a coragem de me expor de fato para um público. E eu que pensava que tudo era mais fácil quando se cresce. HAHAHA – piada da minha própria inocência incompreendida por mim mesma. Essa vida é bem menos alegre do que irônica. Escutando Lulu Santos pela manhã, tento esquecer que minhas mãos fedem a ferrugem do aparelho apoiador de peso que utilizo durante os meus exercícios diários, além do aroma maravilhoso da louça que impregna as luvas azuis tamanho M e minhas mãos envelhecidas tamanha vaidade fútil. Mas que penetração inconcebida de água, luvas e mãos! Juro que tentei levar na esportiva todo o meu trabalho doméstico, mas as discussões com minha filha de 8 anos não me deixam menos estressada. Minutos antes, assistíamos a uma entrevista que apresentava um socialite paulista como entrevistada. Para os nossos delírios, ela possuía taças de ouro, closet repletos de jóias, sapatos e bolsas de marcas, além de uma banheira maravilhosa na sua suíte, este último fato, motivo para minha discussão com a minha primogênita e única. Ela não entende nada de grifes entre outros pormenores típicos das futilidades femininas adultas, mas só o fato dessa mulher rica e linda beber champanhe em taças de ouro já levou meu arqueológico feto a pensar que aquilo tudo era o máximo dos máximos, mas é claro que a mamãe acaba contribuindo para essa mente efêmera e fugaz do materialismo. Mas nunca me disseram que eu precisava ensinar a minha filha a ser menos ambiciosa. A ambição para os meus pais não passam de uma brincadeira de gente pobre, ou uma ocupação para mente que serviam de oficina para muitas pertubações...Contudo, nada disso interessa quando se olha uma linda banheira daquelas. Em meus devaneios compartilhados, comentei com a secadora de louças (ela odiava essa denominação) que futuramente na nossa casa (já que moramos de aluguel), eu teria uma banheira. O problema é que em se tratando de futilidades, nós guerreamos a ferro e fogo, claramente isto significa dizer que ela também queria uma. Droga! Agora não posso nem ao menos sonhar besteiras sem ser interrompida. AFF...(3 vezes de preferência para destinar meu paraibanês). Não foi nada agradável ter que perder uns 40 minutos tentando explicar que se o meu sonho era quase impossível, imagina o dela? Ela teria que esperar mais um pouquinho, e em se tratando de crianças alimentadas pelo capitalismo exacerbado, esperar é um verbo em desuso. E o clima ficou tão desagradável que resolvi esquecer o que estava fazendo e tentar decorar pela milésima vez os versos que iria declamar no Sarau poético na Casa Brasil. Eis que de repente chega meu digníssimo marido, explicando teoricamente regras importantíssimas do usos dos aparelhos musculares, e relatou alguns acontecimentos academísticos – digo assim, pois são quase místicos mesmo, aquela coisa de correr, pegar peso e se esforçar tanto perto de dezenas de pessoas bonitas e apáticas. Tem que ser muito mago mesmo para se esforçar tanto... Eu reconhecia o esforço do meu marido em perder peso, afinal, o meu gosto em cozinhar e a falta de treino marcial lhe rendeu uns quilos a mais, e eu não poderia deixar que a culpa por isso recaísse apenas em cima de nós, que só queríamos, nos primeiros anos de casados comer compulsivamente. A felicidade dá muito fome, é verdade, a exceção gira apenas em torno do circo, por conta dos elefantes. A culpa de todas as gorduras que ganhamos também foi da minha mãe e seus bolinhos de arroz, da Dona Ana e seus bolos deliciosos, da Kipastel, da Pizza Nostra, do moço da tapioca, mas não apenas nossa. Até aquelas pessoas que diziam que a gente estava mais magro, fazendo com que achássemos que poderíamos comer sem peso na consciência. Como a minha filha precisou tomar banho para se arrumar para ir à escola, meu marido tomou a tocha molhada e continuou a secar a louça. Depois do almoço, corri com medo das notícias esportivas, só de escutar a vinheta do Globo Esporte, o meu estômago dói, a comida embrulha, dá vontade de colocar tudo para fora, não existe coisa pior, na verdade existe sim. É quando meu marido está fora e me pego assistindo as notícias futebolísticas só para contar para ele, nossa, quando volto a si, tenho vontade de cortar os pulsos. Apesar que, as vezes, serve para mostrar uma certa superioridade, e provar que essa história que mulher não sabe nada de futebol é uma tremenda balela, porque na realidade mulher não quer saber, existe outras coisas bem mais atraentes para nós como por exemplo um programa de beleza, onde o raciocínio é lógico: mulher feia + dinheiro = mulher linda, e olha que é bem mais complicado que um simples impedimento, os bolsos que o digam. Corri para o computador, e antes de tudo, olhei para os meus poemas que pareciam implorar: decorem-me. Mas que droga! Dois míseros poemas, e eu não consigo decorá-los. Ao som de Small e The Rip estou tentando entender o que está acontecendo agora. É minha primeira vez e preciso de tempo para digerir os meus versos, as estrofes parecem maiores. E se me perguntarem sobre eles? Comecei a ficar confusa, porque a gente escreve e pronto, ficar procurando teorias ou argumentações para as minhas palavras parece loucura, e disso tenho apenas um pouco. Tive que dispensar esse momento e me preparar para o Sarau, me arrumar, maquiar e ajeitar o cabelo, e os poemas, bem, vou deixar que eles falem por si mesmos porque a poesia da vida não está nas explicações fundamentadas de teorias, mas justamente no sentido que damos a ela.

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