sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

SUZANE

Com o avanço das novas tecnologias e a chegada do século XXI, Suzane pensava que estaria livre das amarras fugazes masculinas. Já havia saído de um relacionamento difícil, brigas, policiais na porta, excesso de bebida, arranhões, infidelidades e famílias distorcidas. Não seria sensato sair por aí procurando outro marido, até porque essa história de um novo cônjuge parecia-lhe tão distante de sua atual realidade. Mas no fundo do coração, Suzane sempre fora a mulher para casar (assim ela se definia), se dedicava plenamente a sua família e era muito esforçada, talvez não tanto para suportar um homem como o seu ex, ciumento, desconfiado, beberrão e raparigueiro, o típico “machão paraibano”. Só de lembrar o passado, ela sentia calafrios, foram muitas noites em claro, noites de neblina na Serra da Borborema, exatamente nas subidas do Pedregal, de bar em bar procurando o cafajeste com uma das negas safadas que ligavam para o seu celular dias e dias afins: “Desgraçado, cachorro, juro mãe, juro por Deus que se eu pegar eu mato os dois! Dou uma facada em cada um, morro na prisão, mas mato!” “Calma, calma Suzi! Fez a merda de casar com esse safado porque quis, agora agüenta!”. A mãe de Suzi, dona Zuleika, sempre que podia tentava legitimar na filha a incompetência de escolher companheiros, uma maneira bem prática e conhecida por todas as filhas do mundo: “Bem feito! Vai bichinha desobedecer à mãe! Eu não disse que ele não prestava! Deixa de ser burra mulher, ele tá é com outra, não foi pro Amigão não! Oh mulher ruim de arrumar homi que preste! Aff...”. Mãe que é mãe necessita passar de geração a geração esse (quase) sábio ritual de massacre de auto-estima. É uma maneira bem peculiar de poder, de reafirmar a necessidade de ser mãe de fato, afinal, a mãe sempre ajuda, sabe o que é melhor para os filhos, ama os filhos por igual, protege e cuida da prole...
Foram 5 anos de sofrimento com o maior raparigueiro da cidade, claro que depois de muitas idas e voltas e muitas raparigas. Suzane tinha uma paciência de Jó, e quando a bomba estourava parecia que tinha baixado um espírito maligno, pagava o facão do falecido pai e saia pela rua parecendo uma louca. Uma vez ela foi acordada por sua melhor amiga, a Leandra, que jurou que tinha visto o safado lá na esquina conversando com uma nega, uma loira de cabelão alisado. Primeiro, Suzane fingiu que não ouviu, segundo, foi escovar os dentes, e cada vez que Suzane ignorava as informações trazidas pela amiga, mais Leandra apimentava a história. “Não, não era ele, ele saiu daqui faz uma hora! Ele me prometeu que não iria mais ficar batendo papo com essas putas aqui do bairro. Ai, sabe de uma coisa? Não tô mais nem aí. Não amiga, você deve ter visto o irmão dele, o Augusto, eles são muito parecidos...” “Era ele mesmo, ele não tava com a farda da empresa? Acho que deve ter ficado por ali uma hora, até o marido da safada sair pra eles poder conversar. Mas ele é homem, Suzi, e tu ainda acredita? Se eu fosse tu ficava preocupada, todo mundo da rua me chamando de chifruda, eu é que não queria esse nome... Oxe, tá pensando que sou doida de confundir teu marido é?” Mas quando chegou no “Ele tava era falando umas coisinhas safadas no ouvido dela, que ela ria toda se amostrando pra ele, se encostando nele”, aí a Suzi não aguentou. Saiu de casa de pijama mesmo atrás do safado, pagou o maior mico na rua, todo mundo perguntando o que era aquilo, mandando ela se acalmar, um bafafá tão grande que se fosse verdade a história da amiga, teria dado tempo suficiente do marido de Suzane se mandar lá para o Distrito. Quando voltou pra casa, depois do surto de ódio, Suzane fechou a porta e desabafou com a amiga, meteu a faca no pescoço de Leandra e deixou sangrar, como sua mãe faz na granja com as galinhas e depois que sua sala estava toda ensanguentada, ela passou um pano molhado com pinho sol, pra casa ficar cheirosinha do jeito que seu querido gostava. Quem dera... desabafou chorando mesmo, mas doida pra que fosse outra pessoa que pudesse enxugar as suas lágrimas, doida para que Leandra fosse embora e levasse com ela a língua maior do que o Pedrega junto. “Aff... amiga falsa”.
Definitivamente longe de tudo isso, Suzi estava numa boa – todo mundo pensava. Trabalhando no shopping, em uma loja de grife, toda linda e maravilhosa. As amigas lá do bairro só faltaram morrer de inveja, todo mundo pedia para ela levar o currículo, pra indicar alguém, pra comprar coisas da loja no nome dela, etc, etc. Já acostumada com as pilantragens, ela dava uma de doida: “Tá, tá, eu vou ver”. Na sacola de lixo quase um quilo de currículo. No final das contas, ela estava muito feliz de poder realizar seus sonhos, carteira assinada, Traxx na varanda, maquiagem da Avon da linha super-mega-up, perfumes e hidratantes da Natura, sandália da Melissa e roupas variadas, até porque ela tinha que balancear entre Santa Cruz e Dona Florinda, Fórum e Santa Cruz, e assim por diante. Não existia nada mais contagiante do que chegar para as amigas mostrando tudo o que tinha comprado, tanta coisa linda e cara, tanta coisa linda, tanta coisa, tanta que tanto fazia se usasse ou não, porque, às vezes, muitas vezes, não tinha tempo de usar. Zuleika pedia até as calcinhas modelo “pra dar” emprestadas à filha, mas tudo bem, mãe é mãe, tem prioridade em tudo.
Durante essa nova vida, Suzi estava tão feliz que mal pensava em namorado, em homem pensava depois de acordar até a hora de dormir, também, ali no shopping era muita cantada que recebia, precisava controlar os ânimos para não ficar muito à mostra a simpatia exacerbada. Era um jogo bem difícil, porque a loja era só de roupas femininas, os homens que entravam nela, em sua maioria, eram todos comprometidos. Tinha que ter muito jogo de cintura para poder ser cantada pelo marido da cliente, sem deixar que a esposa e nem a gerente percebesse, ao mesmo tempo em que pudesse deixar claro para ele que estava gostando. Isso era só de brincadeirinha mesmo, ela não tinha coragem de sair com um cara casado, tinha medo do povo falar e já estava cansada de tanta inveja alheia. De vez em nunca ela procurava um amigo de uma amiga pra descarregar o queijo de meses sem ninguém e até que valia a pena, todo mundo percebia a calma e o bom humor, “Minha filha, o que um homi não faz, hein!”. Estava tudo tão em perfeita harmonia que Suzi não percebeu como Mauro, o representante da distribuidora das roupas tinha conseguido um espaço em sua vida. Primeiro, ele muito cavalheiro lhe convidou pra beber lá no Qdoca, depois em Auri, até que finalmente estavam no Xavante. E aquele homem era bom demais, ela ia com gosto e ele dizia que queria ficar com ela daquela maneira, depois de darem uma boa. Ela gostava dessa sensação de liberdade proporcionada por esse fica e ficavam de vez em quando, quando de repente, Mauro queria ficar de vez: “Queria assumir o relacionamento!” “Que relacionamento, menino, tá doido, é?”. Suzi tinha medo, medo de ter que deixar todos os paqueras, os seguranças, os donos da lanchonete, os funcionários de um monte de lojas, e deixar de ser cortejada por todos aqueles homens, era muito desperdício.
No entanto, o tempo foi passando e Mauro começou a frequentar a casa da sua mãe, ela morava em um quartinho dos fundos. E a falta do que fazer nas folgas, faziam de Suzi uma verdadeira escrava de Mauro “Isso, mais pro lado, assim, assim, gostosa!”. E sem perceber todos do bairro já sabiam que Mauro e Suzi eram um casal, só ela não havia se dado conta disso, e quando isso aconteceu, já era tarde demais. Quando se olhou no espelho depois de três anos com o Mauro, Suzi se viu 10 quilos mais gorda, de chinelo, com cheiro de frango, os meninos brigando por causa de um copo de Coca-cola, e a utopia da felicidade pós matrimonial que lhe corria as vísceras depois de esperar por Mauro no sofá até às 2 da manhã em um sábado à noite, e foi nesse mesmo sábado que ela meteu a faca na mão de Mauro e deixou o sangue escorrer. Depois, o colocou pra correr e avisando que se o visse novamente, ia mandar matá-lo. Suzi ferrou o Mauro na pensão alimentícia dos meninos, a grana é maior do que a do seu antigo salário do shopping. Ele fez um grande favor em não querer saber dos filhos porque para ela, os meninos não precisam dele, só do dinheiro. E a grana é boa, ela coloca na bolsa e sai com os meninos pra luxar no shopping, comprar sorvete, e juntando com as outras bolsas que ganha, dá pra comprar também pipoca e algodão doce, mas as roupas não podem ser de lá, só de vez em nunca ela vai à Riachuelo. E quando o queijo começa a coalhar, deixa os pestinhas na casa da mãe e vai dar uns rolés por aí, gastando o que sobrou. E toda vez que ela olha pra um homem, tem a certeza que vai ser diferente. Se com o sangue que corre entre suas pernas ela conseguiu lavar a burra, com o sangue que tirou de um homem ela conseguiu lavar a alma.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

AMIMGO



Só se olha de perto
Não precisa de cores

É real ou ilusão?
Parte da vida e continua no peito
Não acumula pontos extras
As quantidades não são contáveis
Imensuráveis

Ou se tem, ou não se tem?
É impossível não ver
Ao lado, de costas, entre parênteses
Em meio às aspas
Adjetivado

Simples, bom, generoso
Bem se sente
Não importa quem, nem onde
Como, para que e por que
É simplesmente

Só se existir além do espelho
Ultrapassar o objeto
Matéria do nada para o nada
Inexistência profunda
A falta de um amigo

Só se olha de perto
Quando se está sozinha

O sentido da ausência: um símbolo visível



Vazio
Um ar ignorável
Na existência pequena
 Da luminosidade consensual
Rigorosamente parte de um vício
Ciosamente comum

Dilaceram os dias da minha face enrugada
A equivocada sensação de preenchimento
Uma alteridade que nunca se encontra
Nas polaridades da vida
Apenas a repetida canção do espírito
Incessantemente auspiciosa

Se a paixão exprime a verdadeira e incabível voluptuosidade
Tessitura moderna dos sentidos
O amor nunca será eterno,
E posto que é chama
Crema o arco-íris e o multicolorido
Das binaridades de uma vivência
Na perceptível  ausência do tempo